CD cigarra formiga

Audiolivro:

 

  

      Antigamente, quando não havia máquinas nem tratores, os camponeses trabalhavam nos campos, a pé ou com o carro de bois. Por isso, as estradas do campo eram dois carreiros deixados pelos sulcos das rodas, entre os quais cresciam tufos de relva e pequenos silvados.

 

      Exatamente na beira de um desses carreiros havia uma velha figueira, que estendia os seus longos ramos contorcidos. Tinha muitos hóspedes: alguns de passagem, outros permanentes. Entre aqueles que iam e vinham estavam os melros. Apareciam sobretudo quando os belos figos já estavam bem maduros, isto é, em setembro. Melros e gralhas pousavam muitas vezes a descansar na sombra das suas largas folhas verdes, embora nelas não fizessem os ninhos.

 

      Em baixo, ao nível do chão, a figueira alojava uma colónia de inquilinos permanentes. Eram as formigas: tinham aproveitado uma fenda no tronco para escavarem uma intrincada rede de galerias e cirandavam durante todo o dia à procura de comida. Por sorte, o carreiro marginava um campo de trigo e, nos meses de verão, conseguiam acumular uma grande quantidade de provisões.

 

As Formigas

Somos as formigas,
estamos sempre a trabalhar.
Acordar bem cedo para bem tarde deitar,
Procurar,
p’ra guardar...
uuu … uuu ...
Somos as formigas
muitas pernas para andar
Fortes e unidas, não podemos descansar!
Procurar,
p’ra guardar...
aaa … aaa …
A Primavera,
Sol do Verão
Cai o Outono e então
Inverno

 

No primeiro andar, na bifurcação entre o tronco e o ramo mais baixo, morava uma cigarra. Dizemos “morava”, mas talvez devêssemos dizer simplesmente “estava”, porque não tinha casa digna desse nome. De facto, mexia-se muito pouco, só o suficiente para procurar comida. Em compensação cantava, e o seu canto, não sendo particularmente harmonioso, era pelo menos forte. Podia-se ouvi-lo até à curva, lá em baixo, no fim da encosta. Cantava em honra do verão, do céu azul, do sol, do agradável preguiçar.
Do seu posto, observava o formigueiro. Via toda aquela confusão, aquele vaivém atarefado de animaizinhos negros. As formigas formavam uma fila dupla: umas em direção ao campo, outras regressando com grãos de trigo. Cada grão era maior do que cada uma delas, mas não pareciam sentir o cansaço.
“Por que será que se atarefam tanto?” - pensava a cigarra - “Que tolas! Estafam-se a trabalhar em vez de gozarem o sol e o ar livre!”

 

A Cigarra

Para onde é que elas vão?
Estão baralhadas?
estão ordenadas?
Mas que confusão.

São mais de um milhão!
Um batalhão!
Todas a mexer...
E eu mesmo parada,
fico cansada
de as ver correr.
(...)

 

Um dia pensou em travar conversa para se distrair um pouco. Voou e, dirigiu-se à primeira formiga que encontrou, disse-lhe:
- Ei, espera aí! Não queres conversar um bocadinho?
- Oh, eu bem gostava... - suspirou a formiga - mas tenho tanto que fazer! Nós, as formigas operárias, temos de procurar comida para o formigueiro, e...
- Está bem, está bem. Mas fazem algo de agradável, sem ser matarem-se de trabalho?
- Bem... Não... Nada!
- E cantar? Sabes cantar?
- Realmente, não.
- Pobrezinha, tenho pena de ti. Vê como nós, os artistas, somos diferentes! Cultivamos o nosso talento e nem pensamos em encher a barriga, enquanto vocês, criaturas inferiores, não pensam noutra coisa...
A formiga ainda lhe quis responder à letra, mas estava com pressa e, por isso, resmungando qualquer coisa, enfiou-se na sua covinha.
Passou o verão. O sol nascia cada vez mais tarde e punha-se cada vez mais cedo. As folhas das árvores engelhavam-se e caíam. Chegou o dia em que a cigarra não tinha mais nada, mesmo mais nadinha que comer e, ainda por cima, estava imenso frio.
“E se fosse pedir alguma coisita às formigas? Com todo o trabalho que tiveram, hão-de ter a despensa bem fornecida”

Para chegar ao chão foi uma odisseia! A cigarra, que já nem forças para voar tinha, movia a custo as patas entorpecidas. Com muita, muita dificuldade, lá conseguiu, por fim, chegar diante do formigueiro.

(...)
Tenho tanta fome,
quem me vai ajudar?
Se eu pensar
voltava atrás...
voltava atrás...

- Eh, amigas! Eh, venham cá fora - chamou com o pouco fôlego que ainda lhe restava.
- Que é que queres?
Uma cabecita negra apareceu fora da covinha, mexendo as antenas.
- Ah, já sei! ... A artista! Lamento muito mas nós, seres inferiores, armazenamos comida à justa para passarmos o inverno, por isso não podemos dispensá-la para alimentar mandriões.
E voltou a entrar no seu buraquinho, deixando a cigarra a lamentar as suas desgraças.
 

Esta fábula ensina-nos a sermos previdentes: primeiro o dever e só depois o prazer.

 

As Mais Belas Fábulas de Esôpo. (1994). (Vol. Mais Belos Contos): Livraria Civilização Editora.

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